EDITORIAS

ASSINE

ANUNCIE

Dilema das redes e a pandemia

Psicóloga clínica e da saúde fala sobre documentário que trata sobre esses temas

Clarice Graupe Daronco
Foto: Divulgação

 "A internet é um fenômeno recente, com cerca de 50 anos, começando de fato a transformar nossas vidas ao final dos anos 90 e início dos anos 2000. Desde então, junto ao advento da rede mundial de computadores, ocorrem diversas transformações sociais que dizem desde a forma com que nos relacionamos ao que e como consumimos.

Nossas pesquisas e nossos conteúdos expostos na internet deixam pistas do que nos interessa e nos afeta: pessoas, lugares, roupas, comidas, ideias. Sobretudo, através das curtidas e comentários, reforça-se uma lógica bastante estudada no contemporâneo: sou visto, logo sou".

Com essas palavras a psicóloga clínica e da saúde, Raquel Peyerl, fala sobre o dilema das redes e a pandemia.

Segundo a profissional no documentário "O dilema das redes", que há pouco entrou para o catálogo da plataforma de streaming Netflix, recebemos provocações interessantes lançadas por alguns corresponsáveis do modus operandi das redes: "Se você não precisa pagar pelo produto, o produto deve ser você. Em síntese, os algoritmos projetados têm como objetivo nos manter conectados o máximo de tempo possível. Assim, atendendo a cada notificação, entramos numa vasta rede e a uma grande exposição à propaganda, numa lógica inteligente de marketing (mercado e político): algoritmos programados lançam propagandas personalizadas que vêm de encontro às pistas de nossos interesses que deixamos a cada clique ou pesquisa".

Raquel destaca que: "tela com rolagem infinita, digital influencers, cores e notificações constantes, engajamentos que proporcionam uma sensação narcísica de reconhecimento mexem com a química de nosso cérebro. É tanto estímulo e sensação de recompensa, que as pessoas seguem numa compulsão contínua de entrar e manter-se nisso, que quando passa dos limites, acaba deixando de ser uma simples ferramenta ao utilizar seus próprios usuários como tal. Nesse esquema bem elaborado por engenheiros de software com base na psicologia e com objetivos bastante delimitados, o cérebro é estimulado com recompensas positivas, liberando mais dopamina (hormônio do prazer) que em qualquer outra atividade da vida. Contudo, ao longo do tempo de uso, a pessoa acaba não correspondendo da mesma forma: numa compulsão ansiosa, passa a pedir mais e mais reforços de estímulos e prazer, fazendo jus à afirmativa citada no documentário: só dois tipos de negócio chamam seus clientes de usuários: os traficantes de drogas e as redes sociais".



Saúde mental

De acordo com a psicóloga: "pensando nos tempos pandêmicos em que vivemos e a necessidade de isolamento/ distanciamento social como fator protetivo para nós e nossos queridos, a existência da internet e das redes sociais acaba nos "salvando" de um completo desamparo afetivo, permitindo contato com outras pessoas e coisas, a qualquer hora e lugar. Entretanto, os vínculos sociais e encontros presenciais são de extrema importância para a saúde mental do ser humano - o que as mídias e tecnologias acabam não suprindo completamente. Não à toa, muitos irresponsavelmente descumprem o distanciamento social recomendado".

Raquel observa que o novo Coronavírus também nos afeta quando exige adaptações pontuais na rotina e dinâmica familiar, tais como estudar e ou trabalhar em casa (via internet), resultando em mais tempo de exposição às telas e possivelmente, ao convívio familiar. Em casa, lazer e dever muitas vezes circulam pelos mesmos espaços e dispositivos. O que no início pode representar comodidade, a longo prazo pode perder delimitações de função, tempo e espaço. "Nesse novo cenário, crianças estão convivendo muito com adultos e pouco com seus semelhantes; adultos muitas vezes convivem mais do que podem com suas crianças ou até mesmo pela primeira vez "descobrem" que de fato tem filhos ou cônjuges. Mas nem sempre é possível lidar diretamente com tais questões. E nem sempre a comunicação em casa consegue ser efetiva. Conforme o site do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, diferentes países do mundo verificaram crescimento dos números de violência doméstica durante a pandemia".

Para a profissional: "mensurar essa violência, no entanto, tem se colocado como um desafio na medida em que muitas das mulheres estão confinadas com seu agressor e tem enorme dificuldade de fazer a denúncia. Nisso, a própria internet pode ser um recurso importante para conseguir ajuda (como o recurso de psicoterapia on-line ou de páginas voltadas para o apoio a mulheres e ou denúncia de violências). Assim, eletrônicos, tecnologias e internet são ferramentas interessantes, especialmente nesse momento de pandemia, desde que utilizadas de forma adequada e responsável. Já o uso constante e excessivo, pode estar indicando um "vício" proporcionado pelos aparelhos ou até mesmo uma "fuga" das demandas e questões que se revelam nos momentos de crise".


Exposição

Raquel destaca que: "Por outro lado, não é de hoje que intoxicações eletrônicas vem se tornando um agravante na constituição psíquica de crianças e adolescentes, expostas constantemente a smartphones e tablets enquanto seus pais precisam lidar com outras atividades ou que não se encontram disponíveis para brincar/dar atenção. A televisão e a internet estão muito presentes desde o início das novas gerações, o que não significa que elas saibam de fato utilizá-las. Especialmente os adolescentes, ainda vulneráveis, expostos a ideais comportamentais e estéticos com os quais ainda não tem estrutura para lidarem sozinhos. Mesmo a publicidade infantil sendo a única proibida por lei (Lei nº13.257/2016), na internet podemos encontrar camadas que exigem muita cautela".

A psicóloga aconselha: "é preciso estar atento as influências que os dispositivos, tecnologias e redes sociais exercem nos sujeitos, assim como seus mecanismos desencadeadores de violência, estresse, ansiedade, distúrbios do sono e depressão. Eliminar tais dispositivos seria uma atitude extrema, porém estabelecer limites é sempre essencial. Delimitar idade, tempo e horários para uso dos dispositivos, moderar conteúdos, checar a fonte de notícias e silenciar notificações são algumas das intervenções possíveis. Também é de grande importância alternar o uso de dispositivos e exposição às telas com outras atividades prazerosas como esportes, leitura, pintura, escrita, música, e que possam estimular a comunicação de sentimentos e emoções entre os pares. Percebendo dificuldades e ou conflitos que careçam de intervenções, não hesite em buscar ajuda".



jmv_transparente.png
Editora Jornal do Médio Vale
R. Caçador, 406, Bairro das Nações, Timbó - SC,
89120-000 | Telefone (47) 3382-1855
Sobre o Jornal | Expediente | Assine | Anuncie
icon_facebook.png
icon_youtube.png