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Violência contra a mulher: menos denúncias não significam menos casos

Apesar da diminuição de ocorrências em Timbó no período de pandemia, profissional aponta que não se pode esquecer dos casos não notificados

Amanda Bittencourt/ JMV
Foto: Imagem/Arquivo/Migalhas

TIMBÓ - A violência contra a mulher é um tema que vem sendo discutido cada vez mais na sociedade. É um assunto que não podemos ignorar, pois muitas mulheres sofrem diariamente não só com agressões físicas, mas também com torturas psicológicas feitas por seus companheiros, ex-maridos ou namorados. E às vezes, o medo e a insegurança de denunciar, acabam em uma tragédia muito maior: casos de feminicídio.

Neste período de pandemia e isolamento social, notícias circulam que em diversas cidades do Brasil, e do mundo, os índices de violência contra a mulher aumentaram. De acordo com informações da psicóloga da Polícia Civil de Timbó, Bianca Sabine Utpadel, houve sim este aumento em algumas regiões, incluindo municípios vizinhos, mas em Timbó, ocorreu uma diminuição de denúncias. "Felizmente em Timbó houve uma queda de cerca de 22% das denúncias em comparação ao mesmo período de 2019. Inclusive, o número de feminicídios em Santa Catarina diminuiu 32%, em comparação ao mesmo período do ano passado".

Mas, mesmo com um índice parecendo positivo, Bianca afirma que falar em números é delicado e não apontam muitos significados. "Apesar de algumas atividades já terem voltado à sua rotina, há ainda muitas pessoas em quarentena, permanecendo em convivência diária com agressores. Por esse motivo é tão importante cada pessoa ficar atenta aos indícios de violência que podem se apresentar com familiares, ou mesmo vizinhos. Suspeitando, há a necessidade de oferecer ajuda àquela suposta vítima", completa.

A profissional ainda lembra que não podem ser descartados os casos subnotificados, que são as mulheres que devido a diversos fatores não conseguem registrar violências perpetradas por companheiros ou ex-companheiros. "Outras, ainda, conseguem romper com o ciclo violento e sair da relação, sem nunca terem registrado qualquer denúncia", explica.


Cenário de pandemia

A violência doméstica, fora do contexto de uma pandemia e isolamento domiciliar, traz sentimentos de medo e insegurança constantes à vítima. Ela permanece o tempo todo tentando amenizar e evitar uma possível explosão do companheiro, como se fosse responsabilidade dela, assumindo a culpa da conduta violenta do homem.

Em época de pandemia, a situação se torna mais complexa e amedrontadora. "Faço aqui a comparação com o funcionamento de uma panela de pressão. Durante a vida comum, as pressões de um ambiente violento conseguem encontrar formas de alívio e escape, como trabalho, escola e outros compromissos. Numa situação de isolamento domiciliar, todas as tensões se concentram no ambiente familiar, diariamente. Não há formas de escape da tensão", compara Bianca.

A profissional salienta que a mulher tenta agir da forma mais cautelosa possível para não irritar o companheiro, mas ela não compreende que essas ações do marido não dependem dela, são características dele, e é preciso buscar auxílio para amenizar e romper o ciclo violento.

"Além do marido e esposa, temos ainda as crianças dentro de casa. Ocorre também que as crianças sentem falta dos colegas e professores da escola, de sua rotina escolar, podendo gerar nelas também intenso sofrimento. Os adultos, por sua vez, não possuem a adequada paciência e compreensão para lidar com as emoções infantis, podem levar à intensificação das condutas violentas de adultos que já possuem como característica a agressividade".

Bianca ainda ressalta que outros fatores também ocorrem paralelamente e que podem aumentar o estresse familiar, como desemprego, diminuição de renda, chegando muitas vezes a limitar a aquisição da comida básica diária.


Julgamentos

A psicóloga observa que é importante falar também sobre o motivo de a mulher não denunciar situações de violência. "Infelizmente, existem muitos julgamentos sociais, acusando a mulher de ser a responsável por permanecer numa relação violenta. Há o mito e a crença de que as mulheres "gostam de apanhar". No estudo da violência doméstica contra a mulher, constatou-se que quem vive numa relação violenta gasta a maior parte do seu tempo tentando evitá-la, protegendo a si e a seus filhos".

Bianca diz que o objetivo da mulher é preservar a relação, e não a violência, pois grande parte dos assassinatos de mulheres ocorre na fase em que ela está tentando se separar do seu agressor. "Outra situação que ocorre é que muitas mulheres desenvolvem estresse pós-traumático durante a vivência de violências, o que as torna incapazes de reagir e escapar".


Acolhimento

De acordo com Bianca, desde o início da pandemia, a orientação foi de que as pessoas que necessitassem registrar um Boletim de Ocorrência, o fizessem através do site da Polícia Civil, exceto na ocorrência de alguns determinados crimes que devem ser realizados presencialmente nas delegacias, o que é o caso da violência doméstica.

"A mulher que quer denunciar o seu agressor, assim como requerer as medidas protetivas que lhe são de direito, deve fazê-lo diretamente na delegacia. Concomitante ao registro da denúncia e o encaminhamento das medidas protetivas, as supostas vítimas são contatadas remotamente pelo Serviço de Psicologia da delegacia, com o objetivo de acolhimento, orientações e esclarecimentos a respeito de seus direitos, assim como o oferecimento e encaminhamentos necessários à Rede de Serviços do município", explica a profissional sobre os procedimentos realizados.

Bianca ainda observa que tem sido um trabalho intenso e em muitos dos casos, também tem sido feito acolhimento e repassado orientações aos homens acusados, uma vez que para que haja diminuição efetiva dos casos, os autores de violência devem receber acompanhamento. "Felizmente, muitos homens têm aceitado o contato e as orientações oferecidas pelo Serviço de Psicologia da PC", completa.


Denúncias pelos canais:

  • Diretamente na Delegacia de Polícia Civil.  
  • Disque 181 (Polícia Civil) - Denúncia Anônima.
  • Disque 180 (Secretaria Nacional dos Direitos da Mulher) - Denúncia Anônima.
  • Disque 190 (Polícia Militar) - Casos de Flagrante.
  • Aplicativo PMSC Cidadão
  • Equipe Técnica do CREAS - Centro de Referência Especializado de Assistência Social.
  • Equipes de Saúde

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