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'Daqui para outro continente'

Franciele conta algumas das suas aventuras nos 15 países que percorreu no período de quatro anos

Clarice Graupe Daronco / JMV

TIMBÓ - "Voltei. Depois de quatro anos, 20.000 quilômetros pedalados, 15 países e um mundo de possibilidades estou de volta a Timbó". A frase é da timboense Franciele Tais, que em 2015 largou sua vida em Timbó, perto da família e de amigos para desbravar outros caminhos. Agora a jovem aventureira está de volta e concedeu entrevista à redação do JMV que já em 2017 contou um pouco das aventuras da cicloturista Franciele, de 28 anos e de sua parceira, Valentina (sua bicicleta).

Na primeira entrevista em 2017, Franciele em pouco mais de dois anos havia percorrido seis países da América do Sul e relatou que tinha como meta para 2018 e 2019 percorrer seu último país na América do Sul que era Colômbia e em seguida toda a América Central passando pelo Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala, Belize, Cuba e México.

A jovem conta que na época que estava realizando a sua aventura muitas pessoas lhe perguntavam qual era seu destino e ela sempre respondia: México. "A resposta era meio que automática. Um país de natureza exuberante, muita cultura, sem falar que era o último país que eu poderia transitar livremente, sem necessidade de um visto. Naquele época eu pensava em fazer tudo isso porém não sabia nem como cruzaria da Colômbia ao Panamá, ligação da América do Sul para a América Central, já que as únicas opções são céu ou mar".

Franciele relata que quando esteve na Colômbia, na cidade de Cartagena de Índias, realizou atividades de voluntariado em um hostel em troca da hospedagem e nas tardes livres vendia caipirinhas na praia.

A jovem conta que ficou por quase dois meses na cidade de Cartagena, e quando já estava esgotando o tempo do visto na Colômbia insistiu na busca de uma forma menos cara de cruzar até o Panamá. "Pergunta aqui, pergunta ali. Depois de cinco dias, finalmente consegui um contato que poderia me levar em troca de trabalho. Passei duas semanas morando e trabalhando no barco do capitão Higueira".

Segundo Franciele, quando organizava um dos barcos chegou um catamarã com bandeira do Brasil. "Assim conheci Fátima e Augusto do catamarã FAU. Essa amizade foi importante, pois após alguns dias com o capitão Higueira o mesmo confirmou que o barco só faria o Cruzeiro dias depois que vencia minha permissão no país. Assim, sabendo que Fátima e Augusto estavam se preparando para navegar a mesma rota conversei com eles e na hora falaram que eu poderia seguir a rota com eles".

A jovem observa que durante a sua aventura muitas coisas importantes aconteceram. "Sabe quando tudo está no limite e nos últimos minutos do segundo tempo sempre aparece um anjo para te salvar".

Após 32 horas de navegação, passadas por medos e incertezas, Franciele e seus amigos chegaram na ilha onde carimbaram o passaporte com entrada no Panamá. Naquele dia, ela conheceu a ilha de Chichime no Arquipélago de San Blas. "A ilha podia ser desvendada em 20 minutos de caminhada e era de pura areia e flora".

Naquele paraíso, a jovem timboense permaneceu por 15 dias depois seguiu para o Panamá, onde buscou hospedagem junto aos Bombeiros. "Quando estudei as rotas e distâncias buscava pontos estratégicos para ficar quando precisasse. No total foram sete ou oito quartéis".


Perigos vividos 

A timboense conta que nesta sua aventura andou muito de caminhão. "Fui e voltei até a capital do Panamá de carona, no total quatro vezes em pouco mais de três meses. Apenas de ida eram 580km mais 2h30min de ferrovia. Se eu olhar minha lista de contatos no país, domina com números de caminhoneiros. Como ia e vinha várias vezes por um longo caminho, precisava de duas caronas de caminhão para chegar, e outras duas ou três para voltar. Todas as caronas que eu peguei até hoje sempre todos foram respeitosos e legais. Se tive contratempo?! Alguns. De um caminhão tive que descer as 22h, em um posto de gasolina porque o dono do veículo não deixou o condutor seguir me levando. Fiquei ali até a meia noite sem saber o que fazer. Terminei indo com um carro da polícia passar a noite na Delegacia. As 3h peguei um taxi para um hotel porque descobri que um dos bombeiros que eu conhecia estava lá. E no dia seguinte voltei para ilha com ele. Na verdade eu passo uns aperto mas sempre me divirto pedindo carona. E muitas vezes foi descer de um caminhão e subir em outro. Até eu ficava assustada com a facilidade".


Outros países 

Após passar pelo Panamá Franciele seguiu para a Costa Rica que, segundo ela, foi um país de poucas emoções mas de belezas e subidas de tirar o fôlego. "Pela primeira vez estive em um sufoco que ali ninguém me ajudou. Rompeu o cubo dos pedais o que não me permitiu pedalar mais. Estava a menos de 14 quilômetros para chegar até o vulcão Irazú. Passei quatro dias subindo para no dia "D" não conseguir chegar. Fiquei muito brava. Sentei ao lado da estrada por quase duas horas".

Depois desse contratempo Franciele conseguiu chegar na Nicarágua, onde seu visto tinha validade de três meses para quatro países. "Meu lugar preferido na Nicarágua foi sem dúvidas a ilha Ometepe. Uma ilha com dois vulcões cercada por um lago de água doce. Subi ao vulcão mais alto da ilha que foi o Concepcion".

Entrando em Honduras, a jovem conta que passou por um grande dilema. "Por tudo que já havia escutado sobre a insegurança no país e tudo mais fiquei com medo de pedalar. Não conheci ninguém até então que tivesse pedalado nesse país, todos passaram reto. Eu não queria me arriscar tanto, mas também não queria seguir esse telefone sem fio. Foi assim que conheci o Lisandro pela rede Couchsurfing e entre Natal e Ano Novo, deixei a Valentina na casa que eu estava hospedada para fazer uma viagem de mochila. O pouco que eu conheci de Honduras foi sensacional. O país mais fácil para viajar de caronas. Conheci lugares lindos e pessoas amáveis. O que sim chama a atenção é que por mais que você esteja em um povoado de pessoas de dinheiro, tem militar armado em qualquer esquina. Tem militar caminhando por todos os lados, e também em comboio transitando pelas ruas".

Saindo de Honduras a jovem seguiu para El Salvador onde conheceu cavernas de águas cristalinas, subiu em um vulcão lindo e teve muitas aventuras.

Na Guatemala a timboense realizou uma aventura de 16 dias onde percorreu mais de 2000km. "Guatemala surpreendeu com tantas cidades lindas e belezas naturais. Conheci lugares naturais que me surpreenderam e também estive em um dos mais importantes e imponentes sítios arqueológicos Maias conhecido como Tikal. Em meio à selva, no horizonte ainda conseguia ver pirâmides e templos. Levamos mais de quatro horas caminhando com um guia para conhecer o "centro" ou a zona principal dessa civilização".

De caronas em caronas e alguns transportes pagos a jovem se aproxima da fronteira com Belize. "Um país que eu nem sabia que existia. Aliás, é um dos meus preferidos e está no top 3 para morar. A língua oficial em Belize é o inglês. Muitos falam espanhol, mas muitos também não. O meu idioma oficial foi o sorriso, a mímica, o Google tradutor e giro! A impressão quando entrei em Belize era que eu estava na Jamaica, mesmo sem nunca ter ido para lá".

Depois de Belize a jovem seguiu para o México onde descansou por quatro dias, tempo necessário para organizar alguns contatos e uma pequena rota pela Riviera Maia: Caribe mexicano e depois Cuba. "Para essa viagem eu precisava estar 100% porque até então pintavam Cuba como coisa de outra mundo. Em parte é sim. Mas no geral é graças ao grupo bikers L.A.M.A eu tive apoio ao largo do meu trajeto percorrido de 30 dias. Cuba tem suas peculiaridades, não vou mentir. Mas foi uma experiência bacana. Ao retornar para o México, comecei a pensar na volta para o Brasil e aqui estamos novamente, em casa".


Avaliação pessoal 

"Eu posso não ter dinheiro, não ter uma casa, não ter nada desses bens materiais que a sociedade te impõe a certas idades. Mas eu me sinto tão feliz, tão realizada, tão rica de valores, experiências e vivências que status nenhum define. Eu sou muito grata mesmo ao universo que sempre conspirou ao meu favor. Conheci pessoas de várias partes do mundo, ganhei novos amigos, ganhei novas famílias. Me nutri de tanto amor, carinho, generosidade. Me nutri de culturas e costumes tão diferentes, de valores tão importantes que hoje em dia estão sendo deixados de lado... E digo mais... aquela velha frase que o mundo está perdido é mentira!".

A jovem afirma não ter palavras para descrever toda gratidão e satisfação nessa façanha que foi levar um estilo de vida nômade por quatro anos. "Tudo isso com o apoio mês a mês, ano a ano da nossa empresa timboense Treme Terra".

Franciele relata que busca sempre compartilhar a realidade e o lado positivo de tudo que faz e por onde vai, algumas vezes também se sente na obrigação de dizer, mostrar e compartilhar que nem tudo são flores. "Que viajar também cansa e que depois de um tempo tudo vira rotina. Até uma viagem pode se tornar rotina. Passei por várias situações delicadas. E a primeira delas é ser do sexo feminino. Infelizmente como em grande parte da viagem em todos os países fui muito respeitada mas em quase todos os mesmos países eu também fui desrespeitada. O assédio verbal e visual em algumas partes muito forte".

De acordo com a jovem, viver na estrada, ainda mais pedalando lhe expõem o tempo todo. "Além do "perigo" do trânsito, tem algumas pessoas que agem de má fé. Mas eu lhes garanto que todas as alegrias e satisfações que eu tive, eu não poderia mensurar nessas poucas linhas. Também quero dizer que nada disso deva ser uma barreira para você caso tenha esse desejo de viajar, mas tem receio por ser mulher, por ir sozinha, enfim. Vai porque terás uma das experiências mais marcantes da sua vida. Tem momentos na nossa vida que uma decisão por impulso pode mudar nossa vida para sempre e de uma forma tão positiva".

Questionada sobre planos e projetos, Franciele afirma que: "Agora quero desfrutar das minhas raízes, e me preparar economicamente para 2020 explorar o próximo continente: a Europa e vai ser de bicicleta, com certeza! Entramos pela Europa e saímos para um terceiro continente. A ideia é rodar outros dois ou três anos e conhecer um pouco da Ásia, África e Oceania. Não necessariamente nessa ordem, não necessariamente com a Valentina, mas sim nesse estilo, sem pressa, sem tempo definido e vivendo o dia a dia. Sabe?! Tenho vivido tudo isso durante esses 20.000 quilômetros pedalados, que minha na mente, no meu inconsciente já está tudo tão materializado".

Franciele convida a galera que curtiu sua história para acompanhar seu instagram @projetovalvula e pelo instagram da @tremeterraoficial.






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