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Mulheres em constante luta

09 Março 2018 16:22:50

Greici Siezemel

TIMBÓ - Ontem, dia 8 de março, foi comemorado o Dia Internacional da Mulher e na edição do JMV de hoje você acompanha a continuidade e finalização da reportagem especial sobre a violência contra mulher. Para esclarecer algumas dúvidas, a psicóloga da Polícia Civil em Timbó, Bianca Utpadel, fala sobre o tema.

Bianca chama atenção para a agressão psicológica que é a mais difícil de ser percebida e pode se tornar uma das mais destrutivas. "Ela inicia de maneira lenta e sutil, tornando a mulher gradualmente mais insegura de suas potencialidades. Tal violência é responsável pela vítima tornar-se cada vez mais dependente e necessitada da relação com o agressor", alerta ela. Para identificar a agressão psicológica é importante ficar atenta a alguns sinais, veja quais são eles:

 Anulação da autoestima;

? Dependência crescente

(econômica, emocional, de locomoção,...) do parceiro agressor;

? Anulação de projetos previamente existentes;

? Desistência de emprego e estudos;

? Isolamento social e, inclusive, o afastamento do convívio com a família;

? Aceitação do papel de vítima;

? Assume o papel de culpada do comportamento agressivo do parceiro;

? Preocupações e ações para prevenir a raiva do agressor;

? Deixa de manifestar desejos e sentimentos.


Círculo vicioso

A psicóloga explica que existe um ciclo de violências que é composto por três fases:

Fase 1 - Evolução da tensão: O agressor apresenta uma conduta ameaçadora e violenta, com agressões verbais e destruição de objetos da casa. A vítima permanece passiva, paciente, sentindo-se responsável pelas explosões do agressor, sempre procurando justificativas para o comportamento violento (cansaço, desemprego,...). Quando não encontra uma justificativa objetiva, atribui tal comportamento ao uso de bebida alcoólica, drogas, etc.

Fase 2 - Explosão: O agressor passa a apresentar um comportamento descontrolado, com agressões de grande intensidade e ausência de auxílio à vítima. A cada novo ciclo, as agressões se tornam mais violentas. A vítima fica fragilizada e, por não suportar mais a constante sensação de medo e ansiedade, acredita que não tem mais o controle da situação.

Fase 3 - Lua de mel: O agressor apresenta arrependimento e receio de ser deixado pela vítima. Torna-se extremamente atencioso e carinhoso. Faz promessas de mudança e de uma vida feliz. A cada novo ciclo a duração dessa fase diminui. A vítima, por sua vez, acredita na mudança de comportamento do agressor, confiando que os episódios de violência não se repetirão. Aos poucos, o casal volta à fase de tensão no relacionamento (Fase 1).

Analisando essas fases, nos perguntamos o que pode ainda ser feito para que as agressões diminuam. Bianca acredita que a proteção à mulher se consolida na medida em que atitudes discriminatórias se eliminem do convívio familiar e comunitário. "Na sociedade, ainda predomina um modo de viver em que os homens julgam ter mais direitos e poder do que as mulheres e, inclusive, sobre elas. Uma comunidade que sabe que determinada mulher sofre violência e finge não ver ou perceber, deveria se posicionar e cobrar do homem agressor uma mudança de atitude. Há a necessidade de atitudes mais igualitárias e um maior fortalecimento feminino, para que as mulheres possam lutar e acreditar em suas potencialidades e capacidades de realização pessoal e profissional".


Por que muitas se calam?

Bianca explica que vários fatores envolvidos explicam a dificuldade encontrada pela mulher que deseja se proteger de uma situação violenta, tais como:

?Medo de romper o relacionamento e de que o parceiro cumpra as ameaças de morte ou suicídio;

? Vergonha de procurar ajuda e ser criticada;

? Sensação de fracasso e culpa na escolha do par amoroso;

? Esperança de que o parceiro mude o comportamento, de que ela possa ajudar ou busque um tratamento milagroso;

? Por sentir-se sozinha e não contar com pessoas que a apoiem (família, trabalho e suporte dos serviços públicos);

? Despreparo da sociedade, das próprias famílias e dos serviços públicos ou particulares para lidar com este tipo de violência (profissionais mal preparados e preconceituosos);

? Medo de não ser aceita na sociedade como uma mulher sem marido;

? Obstáculos que impedem o rompimento (disputa pela guarda dos filhos, boicotes de pensão alimentícia, chantagens, ameaças...).

? Dependência econômica dos parceiros para o sustento da família

? Nem todas estão preparadas para viver um processo de separação;

? Fundamentalismo religioso ("casamento é para sempre, tenho que aguentar").


Sofri agressão

Caso haja qualquer identificação com algumas das situações violentas descritas, a mulher pode procurar a Delegacia de Polícia para registros de denúncias e solicitação de medidas protetivas. Se preferir, a vítima pode também registrar denúncia através do número 180, que é o telefone para denúncias em todo o Brasil.

Uma vez registrada a denúncia, a vítima é ouvida e terá direito às medidas protetivas previstas em Lei. Dentre as medidas elencadas, a mulher poderá requerer o afastamento do agressor do lar e a não aproximação dele, podendo ser extensivo inclusive aos filhos, dependendo da situação. Além disso, a vítima e sua família terão o direito de serem atendidas e acompanhadas pelos Órgãos de Proteção do município, possibilitando auxílios necessários para o seu fortalecimento e recomeço.

Em Timbó, todas as vezes que a autoridade policial identificar qualquer necessidade de acolhimento de alguma mulher vítima, a psicóloga Bianca faz o atendimento e realiza uma escuta qualificada da demanda apresentada. Em seguida, encaminha a vitima, caso aceite, para a Rede de Proteção do município (Centro de Referência Especializado de Assistência Social ou as Unidades de Saúde - Creas). "O Creas vai trabalhar com o acompanhamento periódico desta mulher e sua família e, ao mesmo tempo, trabalhar o seu fortalecimento pessoal. As Unidades de Saúde entram com o acompanhamento psicológico clínico. O importante é a mulher vítima receber assistência dos serviços do município, pois muitas delas, infelizmente, não conseguem sair do ciclo de violência e passam da escolha de um companheiro agressor, para outro violento da mesma forma. Sendo assim, o fortalecimento das potencialidades da vítima é fundamental para a quebra do ciclo", explica.


Ligue 180

É imprescindível também que seja feito um trabalho com o autor da violência, pois ele também precisa compreender a sua dinâmica de relacionamentos com mulheres e não pode considerá-las apenas como objetos para alcançar e confirmar o seu poder. "Um homem agressor é um homem com fragilidades que precisam ser aceitas por ele e trabalhadas psicologicamente para rompimento das relações violentas. No entanto, não há como descartar as pessoas que jamais se aceitarão e se compreenderão como agressoras. Há pessoas psicopatas das quais as vítimas precisam se proteger". Dessa forma, em primeiro lugar, há a necessidade do fortalecimento emocional das mulheres vítimas para conseguirem identificar possíveis parceiros violentos, negando-se ao envolvimento de qualquer relação de submissão e serventia.





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